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Posted by on jan 18, 2011 in Sem categoria | 0 comments

1 ano sem ela

Hoje faz um ano. Não posso dizer que “parece que foi ontem”, pois não parece. Nos primeiros minutos do dia 18 de janeiro de 2010 minha querida mãezinha morreu. Não morreu simplesmente. Sofreu cinco anos lutando contra um câncer que acabou vencendo, afinal. Quem tem alguém na família com essa doença sabe a luta que o ser precisa travar contra seu oponente. 
Por isso, esse começo de ano pra mim tem um gosto mais amargo ao invés da sensação de começar tudo novo, tenho a sensação horrível de que falta alguma coisa, algo está muito estranho ou algo muito ruim está para acontecer. Já aconteceu. 
Não, minha mãe não morreu nova, nem na flor da idade, tinha 74 anos, viveu sua vida plenamente, trabalhou a vida toda no Magistério e tinha orgulho disso. Amava política e detestava o Lula, a quem chamava de sapo. Se estivesse aqui agora, estaria chamando a nova presidenta de quê!? Baixinha, franzina, 1,42 m de puro poder, em eternos 42 kg (salvo no auge da doença, com míseros 27 kg) meu pai e eu fazíamos tudo que ela queria. Filha de índia bugra + filho de português era branca transparente, cabelos castanhos médios (que mudaram de cor a vida toda), olhos escuros de olhar penetrante e tristes, às vezes desesperadores, nariz  grande e mal desenhado que pronunciava uma certa ruindade, por assim dizer, e buço, sim, muito buço, aliás herança que eu detesto. Mulher de bigode nem o Diabo pode! E tenho dito! Minha mãe tinha uma voz estridente (também herdei isso!) e se colocava de maneira contundente, tanto que não ousávamos lhe dizer Não. 
Vaidosa, só lavava o cabelo no salão, o qual frequentava, no mínimo, duas vezes por semana, as unhas sempre compridas e pintadas. Pouquíssimas vezes vi minha mãe sem esmalte. Mesmo no hospital ela pedia à sua manicure que fosse fazer sua mão lá, no hospital. O Dr. Ceribelli, médico dela, chegava, via a unha pintada e falava: “E mulher danada, até aqui com a unha pintada”! E ela, toda boba respondia: “É né doutor, tem de se cuidar”.   
Louca por sapatos, tinha compulsão a comprar, não como qualquer mulher, era compulsão mesmo! Quando íamos comprar sapatos, ela escolhia o par que gostava e levava todas as cores disponíveis daquele par, entende? Bem, ela calçava 33 e raramente encontrava numeração adequada, então, como desculpa dizia que iria levar todos, pois era difícil achar sapatos para seus pés. Aproveitava e levava a bolsa para cada par, sim, minha mãe é da época em que sapato e bolsa eram usados na mesma cor! 
Por outro lado era generosa e bondosa com os outros, ajudava como podia, levava a hospital, dava carona, cuidou do irmão, também com o mesmo câncer de intestino, fazia compras do mês como presente, nunca esquecia datas, sempre dando buquês de flores, cestas matinais (suas preferidas), ovos de páscoa, panetones, presentes em aniversário. Era muito popular e falante, era madrinha de casamento, batizado, formatura, crisma de uma infinidade de pessoas, vivia rindo e alegre, dando mensagem de otimismo à todos. 
Era uma pézinho de valsa, tinha bicho carpinteiro, não podia ouvir uma musiquinha lá longe que punha-se a dançar. O cúmulo da maldade: adorava ver bêbado na rua à pé, cambalendo para um lado e outro, tropeçando no ar ou no próprio pé, parava o carro e ,de longe, ficava a rir sem dó nem piedade do coitado ébrio. 
Sempre foi minha companheira e cúmplice, soube tudo de mim. Mimou meu filho nos dois anos que conviveu com ele, desde enxoval até dinheiro na poupança. Depois que compramos nossa casa, meu marido e eu, ela deu um ataque e comprou tudo novo para minha cozinha, desde copos até jogos de panela, faqueiros e aparelhos de jantar. 
Fez quase tudo o que quis, viveu à sua maneira, saía de carro ouvindo música, coisa que amava fazer; comia sua “carninha” com sua cervejinha TODOS os dias e essa mesma carninha foi quem agravou tudo, num quadro onde já havia problemas intestinais, com um irmão à beira da morte, com o pedido do médico de que fizesse um exame preventivo, enfim todos os sinais ali e a negligência com a própria saúde apesar de tanto cuidado com a aparência.
Bem, o que tem de ser é. Será? Será que a gente não pode evitar ou postergar certas coisas na vida, ou ainda torná-las menos graves ou menos destruidoras? Isso minha mãe nunca vai saber. E para esse começo de ano tão amargo pra mim, vou tomar isso como lei, tentar mudar o que já é, para melhor. Feliz ano novo pra você também…

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