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Posted by on mar 22, 2015 in Elucubrações, Papo cabeludo | 107 comments

A Hepatite na minha vida!

Sempre usei camisinha enquanto não queríamos ter filhos. Faço campanha ferrenha para que TODAS as pessoas (inclusive as casadas!) usem camisinha com seus parceiros,  mas a única coisa que consegui (fora a minha própria proteção) foram acusações, alusões e piadinhas de mau gosto insinuando que meu “casamento era aberto” já que eu uso camisinha com meu marido. Ignorância existe nos lugares onde menos se espera, enfim…Sabe como é, o povo adora criar “capítulos” para a sua novela. Sei que posso falar por mim e não pelos outros, portanto, cada um vive sua vida como acha direito.

Sou um tanto metódica e desde sempre planejei minha vida mentalmente. Sempre disse a mim mesma que me casaria aos 25 anos e teria filhos aos 40. Meus pais se conheceram tarde, minha mãe tinha 28 anos, bem tarde para época, quase balzaquiana. Quando ela completou 33 anos eu nasci, em 1969. Ela era considerada muita velha para ter filhos. Enfim, sempre tive comigo que teria filho aos 40, depois que eu estudasse e aproveitasse bastante meu casamento. Eu jamais engravidaria “sem querer”, tudo deveria ser bem planejado e em comum acordo com o pai da criança, lógico!

Comecei a namorar o Joel em 1993, ano do plebiscito. Aliás um dia antes. Dia 20 de abril. Eu tinha 23 anos. Ele 26. Em 1995, Joel veio morar em Joinville, para montar o novo caderno de cultura do jornal A Notícia, a convite do amigo Jerê. O caderno Anexo que perdura até os dias atuais. Ele aqui e eu lá em Londrina terminando minha pós em Campinas…eu vivia dentro do ônibus, num fim de semana ele ia, noutro eu vinha,  combinamos que eu me mudaria para Joinville assim que terminasse a pós. Isso foi no dia 07 de fevereiro de 1995.

Então, inevitavelmente bem planejado, fomos morar juntos nos meus 25 anos. Só faltava ter o filho aos 40. Assim segui, vendo minhas amigas tendo filhos e insistindo para que eu também tivesse para “eles crescerem juntos”, mas graças a Deus, à camisinha e ao meu juízo e lealdade a mim mesma não aconteceu antes da hora. Não que eu ache errado ou desabone gravidez não programada, apenas não funciona assim para mim.

2005. Trabalhando no figurino do filme Anita e Garibaldi, com a linda Ana Paula Arósio e o fofo Gabriel Braga Nunes. Dentro da van indo para São Francisco do Sul, onde estávamos rodando o filme recebo um telefonema de minha mãe: ” – Filha, vem pra cá, mamãe descobriu um tumor no intestino igualzinho ao Tio Rolo”.

Minha mãezinha adoeceu.

Câncer. Intestino. Meu tio, irmão dela, estava em fase terminal com o mesmo câncer. Larguei tudo e fui morar com ela no hospital. Em Londrina. Quando o câncer deu uma trégua, fase remissiva mas com colostomia e ainda muito magra, falei para Joel que deveríamos ter nosso filho. Eu tinha medo de que minha mãe morresse sem conhecer o neto. Sou filha única, e queria dar esse gosto para ela. Eu estava com 37 anos.

Quando resolvemos que seria hora de termos um filho, fomos fazer nossos exames de praxe para ver se a saúde estava em dia. Joel foi diagnosticado com Hepatite C. Dra. Cleusa tomou o caso do Joel com carinho, disse que suspeitava que ele havia contraído a doença na campanha de vacinação, quando recebíamos, todas as crianças, uma picada com a mesma agulha que entrava e saia daquele revólver nas filas de vacinação da década de 70. Muitos casos diagnosticados na mesma faixa etária e região corroboravam sua teoria.

Iniciamos tratamento com Ribavirina e Interferon, uma para baixar a imunidade e expor o vírus da Hepatite, o outro para combatê-lo. O Joel perdeu 27 quilos. Desta feita, o povo que escreve os capítulos da nossa novela, se dividiam entre apontá-lo como portador de HIV ou de estar padecendo de câncer. O efeito colateral dos medicamentos eram terríveis, fadiga, dor no corpo, dores de cabeça, sem contar a imunidade baixa porque tentávamos matar um vírus bem instalado no seu fígado.

Joel com Kenzo

Joel com Kenzo, em maio de 2008

Toda semana ele precisava se aplicar uma injeção intraderme na coxa, pecado, nunca consegui ajudá-lo com isso, não tinha coragem de picá-lo, mesmo sendo remédio… achava que eu era forte e valente, mas amoleci. Mais que o sofrimento pelos efeitos da medicação, ele sofria por conta do trabalho, porque seu rendimento não era o mesmo, com aquele tratamento que era similar a quimioterapia. Joel vivia com muitas feridinhas na boca, aftas, ínguas, falta de apetite, de ânimo, comia mal, vivia com pequenas mas constantes febrículas… Foi um trabalho hercúleo. Mas após um ano ininterrupto de tratamento, Joel venceu o vírus.

Liberados pela médica, no terceiro mês sem a camisinha, engravidei. Gravidez desejada, esperada, festejada! Gravidez tranquila, alegre e perfeita. Kenzo chegou em fevereiro de 2008. Eu tinha 38 anos. Adiantei meus planos 2 anos. Kenzo viveu com a avó, a batchan deu sua primeira papinha, não lhe dava banho pela fragilidade de seu baixo peso, mas mimou o neto como ninguém! Minha mãe faleceu dia 18 de janeiro de 2010. Eu tinha 40 anos.

Kenzo e avó

Kenzo nos primeiros dias de vida com a avó materna, Dalva

SAIBA MAIS SOBRE A DOENÇA (Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde)

As hepatites são doenças graves que atacam o fígado, um dos órgãos mais importantes do corpo humano. Os cinco principais tipos (A, B, C, D e E) são causados por vírus que podem passar de uma pessoa para outra e infecta mais homens do que mulheres. A hepatite B é uma doença sexualmente transmissível (DST). E, assim como a hepatite C, pode ser também transmitida pelo sangue.

Em relação à hepatite C, de 1999 a 2011, houve 82 mil casos no Brasil. A maior parte dos infectados (90%) estão concentrados nas regiões Sudeste e Sul, com destaque para São Paulo e Rio Grande do Sul, com 56,9% (46,6 mil) e 13% (10,6 mil), respectivamente.

Sou psicóloga de formação. Depois de alguns anos de clínica abandonei o divã. Fiz Moda e Estilismo. Trabalho com figurino, revisão de textos, gerenciamento de redes sociais, criação de sites e administração de blogs. Casada com um jornalista e escritor. Mãe (coruja) do Kenzo, de 10 anos! Praticante de Pilates e Aikido. Louca por Star Wars, internet e tecnologia.