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Posted by on jul 5, 2012 in Literatura | 3 comments

Último dia

Escolheu um domingo de inverno, com sol e calor de primavera, vergou a melhor pelagem de que dispunha, mesmo puída, rota e opaca pelos longos anos de uso. Depois, colocou uns olhos não mais tristes que os de sempre, pois não os há, porém havia uma ponta de tragédia vidrada, uma sonolência que não se foi com a manhã. Estava calmo e resoluto, tomou pequenas providências, como reencontrar certos cheiros, percorrer o gramado numa infinita lentidão, confabulando consigo próprio. Sempre muito lento, parando em um canto ou outro, quedava-se numa bovinidade estranha para um cão. Algo o impedia de seguir, embora forçasse o passo até que o músculo incerto ruía e desandava. Então permanece deitado sobre as quatro patas num desalento completo. Depois, retoma a revista da casa. Com um pouco de teima e muito de determinação, percorreu todo o quintal. Quando o vi parado em seu portão sem forças para entrar, parecia um viajante carregado demais, com uma bagagem que já não podia levar. Entendi, então, que estava pronto para a sua última viagem. Era domingo, um atípico domingo de sol em julho, com muita luz e calor moderado. Um bom dia para partir. A longa viagem com bilhete só de ida estava começando, mas não havia pressa. Só determinação.

Passamos a tarde sem grandes acontecimentos. Um pequeno banho de mangueira, um longo banho de sol. Foi um almoço típico de domingo, para ele uma iguaria especial: presunto em cubinhos. Depois, uma longa sesta entrecortada por muita água, bebida não sem grandes dificuldades. O câncer alojara-se na boca, rápido, fatal, inclemente. O dia é de muito trabalho: um olho fica no livro o outro no cão acamado. Veio a noite e uma lua dessas de uivar lobisomem se fez no céu como um canhão de luz. Zeca – era o nome do labrador – acordou um destino em seu íntimo e pôs-se a buscá-lo. Lerdo e trôpego, mas obstinado, como se houvesse uma porta secreta, movia-se num círculo sobre si mesmo. Comeu pão embebido em leite e fomos ambos à biblioteca, acomodou-se de frente para a estante de livros de história. Desinteressou-se logo dos livros, voltou a cabeça para os meus pés, apoiada sobre as duas patas. Entre um cochilo e outro, se punha a vigiar-me como fazia quando bebê. Termino a vigília entre cuidados e teclados já com o dia claro.

Serão necessárias ainda sete horas até que deixe de respirar. Está conformado e não ensaia qualquer esboço à última visita do Dr. Luiz. Então o vazio se dilata. Vai-se embora um pedaço de afeto, uma presença tão constante nos últimos 15 anos em nossas vidas. Apaga-se com ele uma parcela da vida que era, e morremos juntos nesse tanto de apego, afeição e amizade. Era sabido e esperado, mas como dói.

 

Joel Gehlen  – escritor e jornalista

Sou psicóloga de formação. Depois de alguns anos de clínica abandonei o divã. Fiz Moda e Estilismo. Trabalho com figurino, revisão de textos, gerenciamento de redes sociais, criação de sites e administração de blogs. Casada com um jornalista e escritor. Mãe (coruja) do Kenzo, de 10 anos! Praticante de Pilates e Aikido. Louca por Star Wars, internet e tecnologia.