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Posted by on ago 9, 2018 in Literatura |

A Bomba e o Tempero

Crônica, Joel Gehlen, A Notícia, 9 de agosto 2018

No início daquela manhã em Kokura, houve quem reclamasse do céu encoberto. Aquilo poderia até facilitar um bombardeio americano. Em outro ponto da cidade, alguém olhou para cima e agradeceu pelas densas nuvens, talvez obrigassem a aviação inimiga a voar baixo o suficiente para ser alcançada pela bateria antiaérea da cidade. O bombardeiro com o artefato sobrevoou acima das nuvens por 50 minutos, sem conseguir avistar o alvo, e seguiu para a segunda opção: Nagasaki. Era 9 de agosto de 1945.
O dia estava perdido. A Alva ainda luzia pendurada em algum ponto acima da serra e os dedos da Aurora se contrapunham delicados na jugular da noite, o amanhecer ainda era um prenúncio, mas o dia já estava perdido. O despertador não bateu às 6h, como deveria, e só acordou meia hora mais tarde, no susto. Aquele atraso depôs tudo a perder. Tropeçou nessa ideia ao se levantar e arrastou-a manhã adentro, na certeza de que não daria conta do dia. Fez do resmungo ranzinza seu mantra e foi estendendo essa nuvem negativa sobre o seu dia, como quem estica o trigo para preparar a massa de macarrão. Antes que batesse o meio dia, sentia-se fatigado como se agosto inteiro tivesse exigido o seu ininterrupto esforço.
O golpe final do desânimo acertou-lhe o queixo quando se acercou da cozinha. Tinha de preparar quatro refeições. Cozinhar era algo que fazia com gosto. Podia passar três horas em torno de um salmão ou bacalhau, que já vinha dessalgando desde a véspera. Como quase tudo na vida, a comida só fica boa se feita com dedicação e amor. E na sua despensa interior não havia nenhum desses ingredientes. Outra vez pensou em desistir. As quartas-feiras são sempre atribuladas, e nessa havia um particular acúmulo de compromissos. Decidiu ligar o “dane-se”. O que der, deu; o que não der, desse; pensou. Mas preponderou o princípio de que deveria dar conta do que era necessário e não o que seria mais fácil. Optou por fazer o básico e cumprir toda a agenda. Serviu um almoço com arroz – o feijão já estava pronto –, bife acebolado e salada de tomate. O último item era a crônica, escreveu o básico também. E como toque final, temperou com a bomba e o imponderável das nuvens. Às vezes, aceitar, se adaptar e se harmonizar às mudanças é uma regra de sobrevivência. Se quiser saber um pouco mais sobre tudo isso, visite a exposição Semana da Paz, do Instituto Tachibana de Aikido, no Garten Shopping, até domingo.

Sou psicóloga de formação. Depois de alguns anos de clínica abandonei o divã. Fiz Moda e Estilismo. Trabalho com figurino, revisão de textos, gerenciamento de redes sociais, criação de sites e administração de blogs. Casada com um jornalista e escritor. Mãe (coruja) do Kenzo, de 10 anos! Praticante de Pilates e Aikido. Louca por Star Wars, internet e tecnologia.